
Café Frida (extinto) Rua Augusta - São Paulo-SP


Café Frida (extinto) Rua Augusta - São Paulo-SP
Não sei
Mas sei o medo
De que o desejo não seja tanto
De que o tanto que seja
Não seja suficiente
Que o suficiente seja pouco
Ou talvez seja demais para se exigir
(janeiro 2002, mas sempre atual)
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
De tanto bater, meu coração parou.
Batia forte, sem frescuras.
Perdia o ritmo por tanto querer.
Não tinha freios o meu coração.
Batia ao som das gotas de chuva que caíam
aos domingos pela manhã
Acordava ao som dos passarinhos
e se abria ao primeiro abraço do dia
A cada dia uma batida diferente
Cheio de paixão numa terça qualquer
Repleto de pavor nos sábados solitários.
Ele batia,
Batia e batia.
Vinha me encher de alegria quando um regalo recebia
Hesitava em bater ao abraço apertado de antes de dormir
Temia o descompasso.
Ao passo adentro de uma das casas se alertava
Sempre à espera do primeiro carinho.
E continuava batendo.
Teimoso, o meu coração.
Insistiu no toque das mãos,
No encontro das almas,
Nas celebrações,
Na ânsia por novos lugares,
Novos ares que nem vento pudesse trazer calma.
Veio a calma, mas também a angústia.
Dias frios de sol
Dias de chuva secos como aquela rosa que se acabou
Na intenção de um amor provar
Mas meu coração insistiu.
Quis ter um lugar ao lado dos deuses.
Quis a volúpia, e quis também o ordinário
Tentou a leveza, pensou em férias
Conseguiu um feriado
Bateu tranqüilo,
Mas não quis parar.
Ainda não…
Quis a harmonia
Mas encontrou a indiferença e cogitou não bater
E quando um coração cogita…
novembro 2008
Peru de Natal.
Peru de Natal é um prato que se come quente, insosso e branco.
Quase cru e queimando a língua, sem adição de tempero.
Afinal, é um peru temperado.
Se fosse vermelho, sangraria.
Mas como não o é, jorra uma água de natureza gelada que se esforçou para cozinhar a carne pálida.
Nem eu nem o forno agüentamos o calor.
Aquela transferência de temperatura, da fonte ao ambiente.
O forno a aquecer a casa e eu aflita com o estalar da manteiga.
O peru, que na verdade era para a chegada do novo ano – 2008 é a promessa da vez – é um prato que se come em meados de julho.
Há um tempo em que tudo se renova.
O mesmo deve acontecer com o congelador.
Por azar ou imprudência, não havia só sorvete a perder: havia o peru.
Os fogos de artifício e o sofrimento do forno me preocupavam. Achei por bem acabar com esta agonia.
O calor, os estalos e depois a névoa.
Uma névoa cobre o horizonte, como nas manhãs ensolaradas deste inverno.
Não enxergo o corredor.
Não que a casa seja pequena, mas a cozinha não tem portas.
As janelas abertas trariam outras visitas para o jantar: os ruídos dos que vão e vêm montados em seus motores roncosos e que com quase a mais absoluta certeza comeram peru no Natal.
Há um exaustor, mas ele fica estrategicamente localizado no meu quarto, passando a entrada, a sala de estar, a mesa de jantar e o corredor, à esquerda.
Lá fica o exaustor, em cima do meu novo jogo de lençóis brancos floridos, que agora são o quintal de uma fazenda a cheirar fumaça.
Peru é um prato que queima a mão de tanto assar, seguido de uma teimosa manteiga a pingar-se pelo chão.
Peru é um prato que não se come cru, por isso deve ficar por duas horas a pagar os pecados em altas temperaturas.
Duas horas é mais do que minha noite suporta.
A noite vira dia e o peru ainda não é um assado.
Mesmo assim é preciso cortá-lo, é preciso comê-lo e é preciso reaver a ordem na casa e no laboratório de experiências pseudo-gastronômicas.
O lixo é um destino certo ao peru, no entanto é a névoa a mais irreverente.
E permanece, não há vento que sopre a essa hora da noite que a faça fugir.
Amanhã faço anos.
Hoje não há testemunhas, amanhã haverá de ter, espero, sempre!
Não teremos peru, não é Natal.
E apesar de ser meu Ano Novo, teremos cozinha internacional: estrogonofe.
Hoje apenas visitas inanimadas, embora o forno reclamasse e a fumaça corresse pela casa.
Não pus a mesa, não me vesti.
Não houve sobremesa nem acompanhamentos.
Éramos apenas eu e o peru.
Ali mesmo, no granito do balcão, eu fiz o que podia com ele.
Não havia barbas feitas nem saias compridas a desfilar.
Apenas eu e o peru – nus, crus e inanimados.
O amanhã me chega, sem piedade
A manhã penetra pela janela
Como se aqui fosse a sua casa
Mantenho os olhos fechados para enganar esta moleca
Mas o sono não me quer mais
É o início de minha existência cartesiana
As palavras rompem o silêncio do sonho que não me lembro
É preciso acender a luz e escrever.
A chuva fina vem brincar com seus cabelos
o vento embaraça seus fios
ela parece não sentir o frio
Senta, levanta, contra ou a favor do mesmo vento
que percorre seus cabelos
De leve, como a chuva fina,
uma lágrima encontra seu lugar
nas ondas do contorno de suas maçãs
pálida ela quer ter pensamentos bons
deseja ser a chuva, que brinca
o vento, que desafia… o frio
ou mesmo a lágrima que encontrou para si a expectativa de descer lentamente as curvas de seu rosto, encontrando casa em seu colo e secando com o tempo.
O mesmo tempo que levará dela todas as coisas
a chuva
o vento
a lágrima
o frio
A levará ao tenro lar
onde se escondem as mais belas fantasias
em forma de histórias que ouve e imagina até adormecer
eu estou aqui
você não está…
estou há dias, noites, tardes
te espero espero espero
estou de volta
estive fora uns dias
foi maravilhoso embora eu aguardasse a hora de voltar
achei que as estórias seriam melhores assim
eu voltei, você notou?
as cartas, as confissões, as caricias…
lembra?
e porque você não está?
estou aqui, mas não quero dormir
a cama me estranha
os lençóis ardem, o vento sopra sem refrescar
não há leitura boa o suficiente
porque você não vem?
preciso deixá-la ir
sabe aquela lembrança?
preciso deixá-la ir embora
preciso que se apague
que tudo se cumpra e o presente seja o melhor
na verdade tentei dormir, mas não pude
eu preciso partir
sua ausência me expulsa deste lugar
mas você demorou a vir, e não veio
deixo um bilhete na porta: não pude mais te esperar!